ROMA LOCUTA CAUSA FINITA EST.

"Viver a Semana Santa é entrar sempre mais na lógica de Deus: a lógica do amor e do dom de si mesmo."

sexta-feira, 12 de junho de 2009

AMIZADE- PALESTRA Pe. FÁBIO DE MELO

Eu tenho cada vez mais uma convicção: que a grande força de Jesus, é com seus amigos. Sobretudo, porque a grande comunidade cristã que somos hoje teve início em um grupo de amigos. Alguém soube ser amigo. Alguém soube emprestar o coração, o ouvido, o braço, o colo. Alguém soube emprestar o olhar. Porque bons amigos são aqueles que se emprestam em um momento de necessidade. É tão bonito compreender que a amizade consiste em nós sermos para o outro aquilo que ele não tem naquele momento.

Às vezes o outro não tem a capacidade de compreender o que está acontecendo. Eu vou, fico do lado, quem sabe ajudo a lançar luzes sobre uma realidade que ele não sabe viver sozinho e na nossa companhia as coisas se desenrolam melhor. A grande comunidade cristã que somos, nasceu na capacidade humana que Jesus tinha de aglutinar as pessoas. De estabelecer vínculo. Tenho essa convicção, que antes de Jesus se mostrar Deus, de mostrar seu lado divino, o que ele verdadeiramente revelou e que foi causa de cativar os outros, era sua verdadeira humanidade. Um ser humano que deu certo. Um ser humano que foi equilibrado, que buscou ser o melhor possível.

Nisso já agia a graça de Deus, é claro, mas ali existe todo processo formativo de Jesus. A psicologia que Nossa Senhora certamente aplicou com ele. A sabedoria de José, ao transformar este homem em um homem de caráter. A influência que ele recebeu da família. Jesus era um ser humano inesquecível. Antes de se mostrar Deus, antes de ser aquele homem que fazia milagres, que era capaz de realizar coisas estrondosas, maravilhosas, Jesus sabia ser gente.

É o que fazia com que as pessoas andassem atrás dele. A palavra de Jesus era uma palavra que estabelecia vínculo. Era uma palavra que aproximava. Não era uma palavra que afastava. Se você vai na Sagrada Escritura, e se começa a pesquisar essa humanidade de Jesus, se começa a ler as passagens que revela Jesus com seus amigos, nas festas, Jesus convivendo, você vai encontrar um ser humano inesquecível. E o bonito de tudo isso, minha gente, é que nós como grande comunidade cristã, somos convidados a ser Jesus de novo.

Toda dimensão divina está a nosso favor porque somos filhos da Graça. A graça de Deus não deixa de agir em nós. Mas aí entra a responsabilidade humana no acolhimento dessa graça. Quando nós olhamos para o humano que está em Jesus, queremos ser como ele. Não somos anjos. Somos humanos, eu e você, marcados por limites, por incompreensões, por dificuldades.
Erramos, acertamos, mas não perdemos de vista o referencial que nós queremos nos tornar. E é bonito quando a gente descobre que ao ser amigo de alguém, que ao ser marido, ao ser irmão, ao ser filho, nós estamos também buscando o modelo de Jesus para nossa vida. E que no momento que a gente precisa, é bom encontrar alguém que tem raiz. Jesus conseguia ser isso. Podava o que havia de ruim nas pessoas, não deixava crescer. Como? Através da palavra dele.

Jesus era um amigo que estava o tempo todo comprometido com as pessoas que ele amava. Ele não permitia que crescesse dentro do coração que ele amava, alguma coisa que pudesse ser ruim. E é bom quando temos alguém na vida que cumpre esse papel também. De nos amar de um jeito certo, de nos promover para a liberdade, de fazer acontecer dentro do nosso coração a ressurreição nossa de cada dia, não é verdade?

Há dias em que parece que a gente está meio morto. Parece que a vida às vezes tem o poder de nos sepultar antes da morte. Quando a gente percebe que estamos perdendo as esperanças, quando as tristezas estão sendo superiores das nossas alegrias. Quando a gente fica desanimado. Experimentamos isso. Eu experimento. Quando a gente sofre por não ser amado como a gente gostaria que fosse, quando você escuta o que não gostaria de ter escutado, quando você perde e não gostaria de ter perdido, quando você é traído, quando você descobre alguma coisa que não foi do jeito que você planejou. É como se a vida começasse a nos sepultar antes mesmo da morte.
Mas eis que entra alguém com seu poder de nos olhar de forma humana e divina e nos convence de que a ressurreição ainda é possível. Que não estamos condenados a viver a morte de hoje. Todo dia a gente morre e renasce um pouco. O processo de viver e de morrer é cíclico. Ele não para. Hoje estou morrendo, eu tenho um dia a menos na minha vida. Isso não é pra eu ficar desesperado. Hoje eu estou um dia mais próximo da minha morte e você também.

Mas ao pensar nesta possibilidade, ou melhor, nesta realidade, querendo você ou não, hoje você está um dia mais próximo do seu destino final. Isso não é pra nos encher de desespero. Mas é para quem sabe, a gente pensar na qualidade que queremos dar aos dias que nos restam. É o que Jesus fazia.

A mudança que acontecia na vida das pessoas é porque Jesus abria os olhos delas pra esta realidade, mas sem desespero. O diabo gosta de nos colocar no desespero. Deus gosta de nos colocar na esperança.

Há duas formas de interpretar este tempo que nos resta. Ou eu vou viver amargurado com aquilo que eu não fiz, não vivi, ou eu vou olhar para o tempo que me resta com desejo de refazer o que precisa ser refeito, administrar o que precisa ser administrado e correr atrás do tempo perdido.

Tive a graça de receber na minha casa esta semana o Guilherme, um amigo que a vida me deu oportunidade de fazer. Ele já me conhecia e eu não. Achei interessante o quanto que na vida do Guilherme, Deus me utilizou como sendo um sinal. Um rapaz jovem, cheio de vida, diferente. Não é como os que vejo na fila da minha igreja. Ma nele, uma experiência de Deus, humana. E eu conversando com ele, me dizia, que tudo o que mais marcou de tudo o que dizia, era sobre o sucesso, porque o verdadeiro sucesso era ser feliz. Que meu pai nunca apareceu nos grandes noticiários, nunca apareceu na televisão, mas era um homem de sucesso porque ele buscava a felicidade todo dia na simplicidade dele. E é verdade minha gente. Às vezes, da mesma forma como Deus entrou na vida do Guilherme através da minha palavra, você também tem o poder de entrar na minha vida, através de uma palavra que você me diz. Esta semana recebi um email de uma senhora que falou tanto ao meu coração. Ela fazia um comentário de uma realidade que aconteceu esta semana e que me tocava profundamente, para abrir os meus olhos de uma maneira simples, bonita e direta, para alguma coisa que Deus queria me dizer, e que me disse através dela. É interessante que quando a gente termina de ler um email como esse, a gente sente vontade de dizer: Palavra da Salvação!

Qual é a palavra que nos salva? É aquela que nos encontra na hora certa. A palavra que tem o poder de nos salvar é aquela que nos encontra no momento certo. Quantas vezes você leu aquela mesma passagem da Sagrada Escritura e ela não disse nada pra você. Mas de repente você lê, e aquela palavra te salva naquela hora, porque era a hora certa de ler. É como você dizer alguma coisa pro seu filho na hora errada. Não adianta. A hora que tá todo mundo gritando, todo mundo nervoso, a palavra nunca vai ser poderosa a ponto de salvar. Mas na hora da calma, na hora que a confusão terminou, a gente tem o poder de salvar o outro com a nossa palavra.

Eu perdôo você. Quantas vezes essa palavra é a salvação na vida do outro. Eu entendo o que você está sentindo. Isso salva. Quantas vezes num momento de desespero a gente só quer isso. Alguém que olhe pra gente e fale: eu entendo o que você está sentindo. E mesmo que eu não consiga dizer absolutamente nada sobre o que você sente, eu hoje eu empresto a minha presença. Eu serei com você. Isso é palavra da salvação.

É Deus sendo humano em nós através do outro. É o processo que nos ensina e que faz atualizar na Galiléia dos nossos dias o mesmo que aconteceu naquele tempo quando Jesus tinha a coragem de olhar para os miseráveis do seu tempo. Para aqueles q necessitavam. E dizer para eles esta palavra de salvação, que a igreja continua pronunciando, dizendo, em cima de todos os telhados, pra que ninguém deixe de ouvir, porque nós acreditamos que no que anunciamos e nós queremos, que aquilo que nós anunciamos, seja palavra de salvação na hora certa, no momento certo, na vida de tantas pessoas.

Padre Fábio de Melo programa Direção Espiritual (Canção Nova), exibido em 04/06/2009
A gente reduz muito a vida cristã à participação da eucaristia corpo e sangue. Gente, a eucaristia, volto a dizer, não é só o corpo e o sangue. A presença real de Jesus se dá também na palavra. Então, o casal de segunda união, tudo bem, estar privado de participar do corpo e do sangue. É uma regra que está aí. Eu não tenho como mudar, você não tem como mudar. Pode ser que a igreja evolua para pensar nisso, não sei, não estou dizendo, só estou dizendo apenas que é uma regra. Se existe já uma reflexão sobre isso, ela não modificou a regra. Eu não posso mudar a regra e você não pode mudar. Então vamos fazer o seguinte. Vamos fazer o que é possível. Que o bom filho não é aquele que fica sapateando eu quero, eu quero. Ele vai descobrir o que pode. A mãe negou alguma coisa. Tudo bem, a igreja nos nega isso, mas a igreja nos permite outras coisas. Você não está privado de participar da palavra. E isso,eu vou dizer uma coisa pra vocês, talvez a gente não tenha hábito de sentir a presença real de Jesus na palavra porque a nossa catequese se limitou a nos ensinar a presença real no corpo e no sangue.

Vamos fazer um exemplo simples. Quando você está com saudade de alguém, agora já quase não acontece isso porque quase não recebemos carta, é tudo no email. Mas quando chega uma carta daquela pessoa que você ama e você tem saudade, eu lembro quando morava longe e chegava uma carta daminha mãe, às vezes ficava duas a três horas olhando o envelope antes de abrir. Gostava de prolongar isso. Pegava e aquilo virava um ritual de presença real. Primeiro tomava um banho, depois escolhia um lugar bonito pra ler. Pra gente entender um pouquinho do ritual de presença real de Jesus na palavra.

A palavra que minha mãe escreveu três, quatro dias antes, estava sendo dita nos meus ouvidos ali naquele momento. O que ela sentia, o que me contava, o que experimentava lá na minha cidade, eu lia e experimentava também, há mais de 1,5 mil km de distância. Isso não é lindo? O vínculo que se estabelece é presença real. A minha mãe estava nas minhas mãos através de um papel. Eu leio o coração da minha mãe. Eu leio os sentimentos da minha mãe. Choro com ela, me emociono com ela. Uma carta tem o poder de fazer a pessoa estar presente ali. É disso que estamos falando. Quando a igreja me diz que a palavra de Deus é presença real de Jesus, a proclamação do Evangelho, Jesus está verdadeiramente presente e eu comungo. Eu recebo em mim. Jesus está verdadeiramente presente da celebração, e eu não estou privado disso. Eu também respondo: “palavra da salvação”. Eu também professo: “ele está no meio de nós”. Então, são uma séria de palavras, parte do contexto litúrgico, que asseguram a minha participação. Eu não estou privado de viver essa presença. Eu não estou privado de viver este encontro com Jesus. Se tem a restrição de comungar o corpo e o sangue, você não tem a restrição de viver o encontro com Jesus através da sua palavra. E cada vez que você estiver ouvindo o evangelho sendo proclamado, as leituras, tenha sempre essa recordação. Deus está falando comigo do mesmo jeito como uma mãe pode falar com seu filho através de uma carta. E aí a gente para, abre os ouvidos e permite que aquela presença entre nós por meio da palavra e eu preciso confessar a vocês que às vezes na celebração eu sou muito mais sensível ao contexto da palavra do que ao contexto do pão e do vinho. Porquê? Porque eu sou filho da palavra. Na minha vida a palavra teve sempre muito poder. Hoje estava assistindo uma coisa rápida que passa na televisão, achei lindo, era um trecho bonito de um poema que estava sendo declamado e quando eu parei, o poema falava de amor e na hora que terminou ele disse assim pra moça: é o amor minha filha, até Deus gosta de ser amado.

Todas as crianças nos ensinam que Deus pede para ser amado. Não é bonito? Naquela hora a palavra tomou conta do meu coração e eu comecei a me sentir bem com aquilo que tinha escutado. Era uma experiência de salvação. Na minha personalidade a palavra tem um poder imenso e eu faço do meu encontro, do contato com a palavra de Deus, seja nos desdobramentos que essa palavra tem, nos textos que eu leio, na teologia em que eu estudo estou sempre em contato com a presença real de Jesus. Nós não podemos limitar a presença real de Jesus no corpo e no sangue apenas. É presença real, é o centro da vida litúrgica, mas tudo aquilo que nós comungamos está desdobrada em uma série de coisas e realidade em que todos estamos convidados a participar. E não perca oportunidade viu. Sempre que você for impactado por aquilo que é bom nessa vida tome consciência de que ali Deus está. Seria muita pretensão da nossa parte dizer que o sagrado pertence a nós religiosos. Não. O sagrado está por aí. Deus não perde nenhuma oportunidade. Ele não fica preso aos limites do meu sacerdócio. Ele não fica preso aos limites da igreja. Deus age onde quer e como quer, na hora que quer. E onde existir um coração pulando de felicidade com desejo de fazer o bem, com desejo de amar, com desejo de fazer alguém feliz, com desejo de modificar a ordem das coisas, Deus lá está vivo e ninguém pode negá-lo. Porque ninguém pode negar que Deus é amor. Que a gente siga nesta luta. Que a gente persevere nesse desejo. Fazer o amor acontecer dentro de nós hoje. E que esse amor humano possa ser um berço para que Deus possa continuar nascendo em cada de nós e através de nós.
Que sempre abençoe cada vez mais este Padre Maravilhoso!
Louvado seja Nosso senhor Jesus Cristo!
Para sempre seja Louvado!
TRANSCRIÇÃO: VIVAINE HENRIQUES

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